No último sábado (15), o Centro Cultural Coreano no Brasil (CCCB) promoveu a 3ª edição do K-Debate no Complexo Cultural Oswald de Andrade, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. O evento integrou a programação do 19º Festival da Cultura Coreana, realizado pela Associação Brasileira dos Coreanos (ABC).
Entre as mesas de discussão, a palestra “Circuitos segmentados da Hallyu no Brasil: streaming, webtoons e eventos” reuniu acadêmicas da Universidade Federal Fluminense (UFF) — Daniela Mazur, Melina Meimaridis, Sofia Fuscaldi e Paula Fernandes — para debater os novos rumos, contradições e estratégias da cultura pop sul-coreana no mercado brasileiro. Juntas, elas propuseram uma reflexão crítica sobre como a Hallyu ultrapassou os circuitos tradicionais para se firmar em nichos hipersegmentados.
A era do streaming e a “alteridade conveniente”
A abertura da discussão, liderada por Daniela Mazur e Melina Meimaridis, contextualizou a evolução da Hallyu no Brasil a partir dos k-dramas. Se em um primeiro momento o consumo das séries coreanas dependia de legendas produzidas por fãs (fansubs) e distribuições não oficiais (pirataria), a pandemia de Covid-19 e a centralidade das plataformas de streaming consolidaram uma nova era. Hoje, a Netflix conta com mais de 400 títulos coreanos em seu catálogo no Brasil, além de promover ações dedicados exclusivamente à cultura coreana em grandes eventos, como o Tudum em 2023.
No entanto, as pesquisadoras alertaram para os efeitos colaterais dessa formalização. Especialmente no caso Netflix, a plataforma de streaming lança “muitos originais falsos e originais verdadeiros”, definiu Meimaridis. Os originais falsos seriam aqueles k-dramas que a empresa lança como “Original Netflix”, mas não foram produzidos e/ou encomendados pela plataforma; ela apenas cuida da distribuição global da produção. “A falta de distinção deixa o público com a impressão de que a Netflix é a maior produtora de k-dramas do mundo, algo que não é verdadeiro”, afirmaram as palestrantes.
As provocações do bate-papo se estenderam ainda a outras problemáticas. Citando o conceito de Orientalismo de Dados (Kotliar, 2020), Mazur e Meimaridis explicaram como a coleta de dados pessoais aliada a algoritmos de recomendação perpetua a lógica da alteridade e do estereótipo orientalista nas plataformas digitais.
📖 Recomendações de leitura:
• Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente, de Edward W. Said (compre pelo nosso link)
• Data orientalism: on the algorithmic construction of the non-Western other, de Dan M. Kotliar
• A Coreia do Sul e a Hallyu: uma globalização alternativa no mundo multipolar, de Daniela Mazur
• Reckoning with the World: South Korean Television and the Latin American Imaginary, de Benjamin Han (compre pelo nosso link)
Enquanto produções brasileiras inspiradas na Hallyu — como a série Além do Guarda-Roupa (HBO Max, 2023) e o núcleo de k-pop da novela Volta por Cima (Globo, 2024) — buscam pontes culturais, reality shows como Meu Namorado Coreano (Netflix, 2026) acendem alertas críticos. Segundo as palestrantes, a atração funciona como uma “infraestrutura para a mercantilização de uma fantasia intercultural. Ao mobilizar a desilusão amorosa de mulheres brasileiras, o formato do reality constrói a masculinidade coreana como uma ‘alteridade conveniente’ e se integra à lógica dos vídeos de react digitais, onde o relacionamento vira objeto de julgamento, descrença e espetáculo.”
“A Netflix lucra de todas as formas”, afirmou Daniela Mazur. “Lucra como a principal plataforma / produtora de k-dramas; lucra com a criação de um imaginário sobre a Coreia [com ações em eventos] e lucra com a fantasia e o julgamento da mesma.”
Webtoons e microdramas: propriedade intelectual e snap culture
E de onde vem os k-dramas que constroem o nosso imaginário sobre a Coreia do Sul? Dando sequência à conversa, Sofia Fuscaldi apresentou o ecossistema dos webtoons, destacando seu papel fundamental como motor de Propriedade Intelectual (IP) do audiovisual sul-coreano.
“O webtoon se tornou uma das principais fontes de IP para os dramas coreanos, alimentando e retroalimentando de forma contínua o circuito produtivo da Coreia do Sul”, pontuou Fuscaldi, citando o caráter transmídia do formato — que transita com facilidade entre quadrinhos, K-dramas, filmes, jogos e animações (como o projeto 7Fates:CHAKHO, em parceria com o grupo BTS).
A palestrante trouxe dados sobre a audiência do mercado de webtoons, que é predominantemente jovem (94% dos leitores pertencem às gerações Z e Millennial) e feminina (6 em cada 10 leitores são mulheres).
Fuscaldi também abordou o avanço dos microdramas, produções audiovisual ultra-curtas inseridas no contexto da chamada Snap Culture (conteúdos de rápido consumo). Com base em estudos recentes de Hye-Yun Jung (2026), a pesquisadora explicou a mecânica de captura dessas plataformas: a exposição conduzida pelo algoritmo leva a uma imersão involuntária do usuário, convertendo-o rapidamente ao consumo pago — para ler/assistir mais capítulos, você precisa pagar.
📖 Mais recomendações de leitura:
• O que são webtoons?, por Falar de Webtoon (leia aqui)
• Understanding Korean Webtoon Culture: Transmedia Storytelling, Digital Platforms, and Genres, de Dal Yong Jin (compre pelo nosso link)
A explosão dos eventos asiáticos
Fechando o debate, Paula Fernandes trouxe luz à dimensão presencial e de consumo da Hallyu no país, com foco no boom de eventos de cultura asiática e encontros com artistas (fanmeetings e shows) registrados a partir de 2019, impulsionados pela histórica passagem do grupo BTS pelo Brasil.
A pesquisadora alertou para o risco de reducionismo cultural que acompanha a popularização desses circuitos. “As pessoas consomem muito um recorte da cultura coreana e acham que aquilo é o todo da Coreia do Sul, e que elas entendem esse todo”, afirmou.
Fernandes ressaltou que essa ilusão de conhecimento pleno tem gerado uma proliferação de eventos “coreanos” produzidos por agentes que desconhecem a profundidade e as complexidades reais do país. Segundo ela, o uso do prefixo “K” (como em K-pop, K-drama, K-beauty) não torna o evento em algo autêntico. Ela relembrou, inclusive, como isto funciona como um demarcador de nation branding, desenhado pelo próprio governo sul-coreano para empacotar e exportar seus produtos culturais.
Por fim, o painel promovido no K-Debate evidenciou que o consumo da Hallyu no contexto brasileiro exige, cada vez mais, um olhar crítico que diferencie a fantasia comercial da realidade cultural sul-coreana.
O Festival da Cultura Coreana reuniu ainda, durante o final de semana, uma ampla programação dedicada à divulgação da cultura do país. Outras palestras, feiras culturais e apresentações de música tradicional e k-pop promoveram o intercâmbio cultural entre Brasil e Coreia.