[Exclusivo] Bi Aguiart fala sobre “Refúgio” e planos para 2026

Autora lança quadrinho impresso e mira foco em “Krista”

Bi Aguiart já é figurinha carimbada aqui no Falar de Webtoon, tendo participado de alguns episódios do nosso podcast. “Ilustradora de livro infantil por profissão e autora de webtoon por amor”, como se define em suas redes sociais, a artista já publicou trabalhos tanto no digital — leiam o webtoon Krista (Funktoon em pt-br / WEBTOON em inglês) que irá retornar em breve!! — quanto no formato impresso, como o quadrinho A Lenda de Grins e a zine Escárnio.

Refúgio é seu mais recente projeto físico. Lançado em dezembro na CCXP25, o quadrinho é um impresso de pouco mais de cem páginas, no qual acompanhamos Daiana, uma garota jovem e inocente que é amaldiçoada. Mesmo que sua família não note a diferença, ela precisa falar do ocorrido com alguém. Mas, sem um refúgio, nenhum lugar no mundo parece ser seguro.

Através de uma abordagem com elementos de fantasia, a história acaba revelando temas sensíveis, como abuso sexual e os traumas decorrentes disso. A trama é intensa, carregada de sentimentos e conflitos pessoais, tornando a obra em um marco na trajetória de Bi, mesmo apenas um mês depois de seu lançamento oficial.

Em entrevista exclusiva, a autora contou para a gente como foi processo de criação de Refúgio, falou sobre os desafios de uma publicação 100% independente e suas inspirações, e revelou seus planos para 2026. Leia abaixo:

Você lançou Refúgio na CCXP25 bancando a impressão de forma independente. O que te levou a escolher esse caminho, em vez de buscar editora, financiamento coletivo ou pré-venda?
R: Em 2024, me organizei para lançar ‘Refúgio’ em 2025 e ‘Krista’ em 2026. Porém, as coisas começaram a ficar turbulentas quando soube do concurso de webtoons que ocorreu ano passado. Considerei ser uma boa oportunidade para lançar ‘Krista’, mas acabou encavalando a produção de ‘Refúgio’, prometido para a CCXP25. Desta forma, não deu muito tempo de entrar em contato com nenhuma editora, muito menos de organizar uma campanha no Catarse, já que, além das produções de quadrinhos e webtoons, eu também trabalho CLT como ilustradora (risos). Então, foi por falta de tempo. Passei todo o tempo que tive focada em produzir ‘Refúgio’ da melhor forma possível e não tive tempo para cuidar dessa outra parte.

A história foi pensada desde o início para o formato impresso? Como autora de webtoon, o que muda entre os dois formatos (impresso vs. digital)?
R: Sim, desde o início eu queria fazer impresso. Para expor em alguns eventos, é preciso ter lançamentos novos e ainda era cedo para pensar numa versão impressa para ‘Krista’. Pessoalmente, eu prefiro contar histórias no formato de webtoons. São vários os motivos; o movimento do scroll traz uma sensação de movimento de câmera; as cores são mais vivas; mas principalmente: o leitor só vê o que deve ver naquele momento. Nas páginas, ele tem acesso a uma série de quadros antes da hora. Ainda assim, é perfeitamente possível planejar as cenas para que o leitor se mantenha com vontade de virar as páginas.

Na orelha do quadrinho, você comenta que a ideia de Refúgio surgiu a partir de um sonho/pesadelo recorrente que estava tendo. Por quê essa experiência te fez pensar “isso aqui precisa virar um quadrinho”? 
R: Quando os sonhos começaram a surgir, eu já estava no processo de escrita de ‘Refúgio’. Inicialmente, a abordagem seria mais em relação a família do que sobre a maldição em si. Mas após os sonhos, entendi que o quadrinho se tratava de outra coisa. (…) Num desses pesadelos, eu e meu corpo estávamos sendo deformados por plantações. Acordei me sentindo amaldiçoada. Acredito que o meu subconsciente tem mais força, dentro de mim, do que o meu lado racional. Ele tenta me explicar coisas que a minha razão não consegue.

A regra da maldição — “só quebra quando a pessoa expor quem realmente deveria sentir culpa” — é simples e poderosa. Como você chegou nessa mecânica narrativa?
R: O mundo que vivemos é tão invertido, que as vítimas tendem a ser culpabilizadas e envergonhadas por erros de outras pessoas. Acaba que, ser um agressor é algo muito confortável. A mensagem é sobre tirar esse conforto dos agressores. Eles deveriam se envergonhar. Eles deveriam pagar, nunca as vítimas.

A descrença da família é um ponto duro e, infelizmente, comum. Como você trabalhou esse conflito?
R: Acredito que todo mundo já se sentiu incompreendido e, de certa forma, deixado de lado. A descrença, nem sempre é uma atitude proposital. Ainda assim, machuca e contribui para que agressores fiquem impunes. Trabalhei essa situação de forma bem fria e explícita na história, pois queria deixar bem evidente os danos que isso pode causar em uma pessoa.

O que “recuperar os poderes” significa emocionalmente para você dentro da história?
R: Quando você está a muito tempo em um lugar tóxico, fica difícil perceber que o problema não é você. A jornada de Daiana ensinou que às vezes a melhor coisa a se fazer, é ir embora, buscar um Refúgio. Quando um evento muito traumático ocorre, nossa alegria, motivação, nossa “magia” vai embora. Recuperar seus poderes, significa voltar para si, abraçar suas dores e se empoderar.

Como você equilibrou o impacto narrativo e a responsabilidade por trás da temática?
R: O desafio era passar as emoções que a protagonista sentiu [na cena do abuso/maldição] sem ser tão gráfico. Foram as ilustrações mais simples (tecnicamente) de desenhar, ainda assim, as mais difíceis.

Tem alguma página ou cena que te deu orgulho quando fechou? Por quê?
R: As rachuras na água. Todo o processo de ilustração durou um mês e meio, foi insano fazer essas rachuras com o pouco tempo que tive para finalizar, ainda assim, fiquei felizinha quando ficou pronto.

Você considera Refúgio como um quadrinho para acolher, denunciar ou provocar? Ou tudo isso junto?
R: ‘Refúgio’ é uma denúncia otimista. Apesar das dores e da parte pesada, quero que o leitor saiba que não está sozinho e que no mundo não tem apenas pessoas ruins. Mas que, ainda assim, as pessoas ruins devem ser identificadas e denunciadas.

Você comentou que inicialmente queria abordar esse tema em Krista, mas decidiu separar. O que te fez entender que eram histórias diferentes?
R: ‘Krista’ é meu segundo projeto solo da vida. É um projeto muito grande para alguém sem tanta experiência assim, por isso decidi pausar e estudar mais sobre roteiro. Enquanto estive estudando, percebi que eu estava adicionando coisas demais. Isso deixa o projeto confuso e prejudica o entendimento da história central. Então, passei a anotar em documentos diferentes as ideias que não tinham tanto a ver com ‘Krista’, o que resultou na criação de vários mini-contos fantasiosos. ‘Refúgio’ e ‘Escárnio’ são dois deles. Ao longo dos anos, pretendo produzir e publicar os demais contos. Desta forma, posso manter ‘Krista’ fiel à sua proposta inicial: um romance medieval sobre amor, ego e autocontrole.

No Instagram, você citou Kabi Nagata, conhecida por suas obras autobiográficas, como uma de suas inspirações para o novo quadrinho. Quais obras dela mais te inspiraram e como isso ajudou no seu processo artístico?
R: Kabi Nagata fala coisas pesadas sobre si e sobre pessoas que ela ama em ‘Minha experiencia lésbica com a solidão’. É um grito de socorro que não tem medo em desagradar. Ler seu quadrinho fez eu me sentir abraçada e compreender que não sou a única com problemas. Me ensinou que, para pôr [os sentimentos] pra fora, é preciso de coragem. Pensei diversas vezes em não publicar ‘Refúgio’, mas foi a coragem dela que me motivou a continuar.

Quais outras referências temáticas e visuais te influenciaram no trabalho?
R: Mesmo sem uma editora por trás, eu queria que o livro tivesse um bom acabamento. Queria que ficasse com cara de um livro de conto antigo e naval. (…) Me inspirei em livros antigos com essa estética para fazer todo o design. Quanto ao meu estilo de arte, eu gosto de misturar animação japonesa com animações bem estilizadas do Cartoon Network dos anos 2000.

Quais são os planos para 2026? Mais impressos, mais webtoons, ou ambos?
R: Para 2026 existe apenas uma palavra: KRISTA. Esse ano vou focar inteiramente na publicação mensal dos capítulos e, se tudo ocorrer bem, teremos um prólogo impresso da série para a CCXP26 <3

Quer saber mais sobre Refúgio e o retorno de Krista? Siga a Bi Aguiart nas redes sociais e conheça seu trabalho: Instagram e Linktree. A autora pretende lançar uma lojinha ainda em 2026 e estará presente em mais eventos, onde você poderá adquirir suas obras.

Se você ou alguém que você conhece está vivendo uma situação de abuso sexual, saiba que existem recursos e pessoas dispostas a ajudar. Você pode buscar ajuda pelo Disque 100 (Direitos Humanos) ou pelo Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher), que funcionam 24 horas por dia, de forma gratuita e anônima. Em casos de emergência ou situações de risco imediato, entre em contato com a Polícia Militar pelo número 190 ou procure a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) mais próxima.

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