Poc Con 26: Caio Yo e Liang Azha compartilham trajetórias em painel sobre Boys’ Love

Artistas falaram sobre bastidores de suas criações e a representatividade dentro do gênero

O universo dos quadrinhos Boys’ Love (BL) — subgênero que apresenta personagens masculinos em relacionamentos românticos — ganhou destaque na Poc Con 26 com o painel Boys’ Love: Brasil-China. Com mediação de Pachi, do Blyme, o debate reuniu o autor nacional Caio Yo e o quadrinista chinês Liang Azha para uma conversa sobre seus processos criativos, o mercado internacional e como as vivências pessoais podem transformar as narrativas do gênero.

Para Caio Yo, o mundo dos BLs representou um espaço de acolhimento fundamental para sua transição da publicidade para o trabalho autoral. Marcado pela estética dos mangás, o artista revelou que o gênero foi o norte que precisava em um momento de crise artística.

“Eu não sabia o que queria estar desenhando e quais histórias queria estar contando. Em certo momento, achei que era apenas um ilustrador, mas agora consigo fazer as coisas que gosto”, desabafou o autor de Cósmico, inicialmente publicado no formato webtoon e lançado em formato impresso pela editora JBC em 2023.

Já Liang Azha explicou que a força de seu trabalho, publicado em diversos países, vem da realidade. Seus roteiros são repletos de detalhes do cotidiano e de histórias que ele mesmo viveu. O autor de Starting with a Lie, lançado no evento pela MPEG, disse que o mercado asiático de Boys’ Love é dominado por autoras mulheres e que decidiu entrar no gênero para trazer uma nova perspectiva para essas histórias.

Sobre este ponto, Caio relembrou que o gênero surgiu como uma forma de empoderamento de leitoras e autoras mulheres, mas que o BL possibilita incorporar vivências de pessoas LGBTQIAPN+, ainda que a romantização das relações faça parte do DNA do nicho. O brasileiro ainda afirmou que se inspirava em dinâmicas que ficavam apenas nas entrelinhas de animes clássicos, como a “amizade” entre Touya e Yukito (de Cardcaptor Sakura).

Processo Criativo

Um dos pontos altos do debate foi a estética visual e o processo criativo de ambos os artistas, que possuem uma paleta de cores e estilos bem característicos.

Caio Yo falou sobre o uso das cores em seu trabalho, definindo-o como algo puramente emocional. “Quando falam sobre Cósmico, as pessoas já me disseram que ele ‘tem cor de café da manhã’. A paleta afeta emocionalmente o leitor”, afirmou. Liang Azha comentou que o seu estilo é mais aquarelado, uma especialização que ele escolheu para se destacar no mercado e se diferenciar do que havia em outros quadrinhos e webtoons.

Quando o assunto foi a construção das histórias, os autores revelaram caminhos inversos. Liang afirmou que transita entre começar pela trama geral para depois desenvolver os personagens, ou fazer o caminho oposto. Já Caio Yo afirmou que costuma pensar primeiro na mensagem, mas que em Cósmico os personagens tomaram as rédeas de forma quase mágica: “Sentia que eles me diziam para onde a história deveria ir, e naturalmente uma mensagem surgiu ali”, explicou.

O debate seguiu em uma conversa sobre os clichês e dinâmicas do gênero, passando até pelo clichê da rivalidade esportiva que se torna um romance do sucesso ocidental Rivalidade Ardente (Heated Rivalry), série de TV e de livros.

Ao fim, Caio revelou que está preparando uma história curta — “Não é um BL, mas tem influências do gênero obviamente” — para a CCXP, mas confessou o desejo de retornar ao formato webtoon, que considera cheio de possibilidades técnicas e narrativas para os quadrinhos.

Liang agradeceu pelo carinho do público brasileiro, afirmou estar muito feliz por ter sua primeira obra publicada no país e pediu que todos fiquem atentos a suas redes sociais para novidades.

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