Neste último final de semana, aconteceu mais uma edição da Blymecon, evento virtual brasileiro dedicado exclusivamente a BL (boys’ love). No domingo (23), o painel “Da Subcultura ao Mainstream: A evolução do BL Coreano e seus estudos” traçou um panorama histórico, sociocultural e mercadológico do BL sul-coreano.
Apresentado por Caroline Yonamine, mestranda em Língua, Literatura e Cultura Japonesa pela Universidade de São Paulo (USP) — e que participou do painel sobre BL e pesquisa acadêmica —, o painel fez uma análise detalhada do BL enquanto prática de nicho marginalizada até o surgimento de obras como Semantic Error, exemplo de sucesso em todos os formatos adaptados.
A chegada do BL à Coreia do Sul
Assim como dito em outro painel, Yonamine iniciou sua apresentação ressaltando um ponto fundamental: não é possível contar a história do BL sem passar pelo Japão. Reduzir a evolução do gênero a uma simples transição de formatos para webtoons ou manhwas ignora as raízes conceituais e formais que foram estabelecidas anteriormente.
Conforme expôs a especialista, a origem do gênero remonta às décadas de 1960 e 1970 no Japão, através do mangás shōjo. Voltada para o público feminino jovem, essa vertente criou um espaço formal propício para explorar a interioridade emocional, o sofrimento afetivo, narrativas amorosas intensas e novas preocupações estéticas ligadas à representação de gênero. Foi nesse contexto que os romances focados no afeto entre jovens do sexo masculino (shōnen-ai) ganharam terreno.
Em 1978, o lançamento da revista June também foi um divisor de águas. Foi a primeira publicação exclusivamente voltada para histórias de relacionamentos afetivo-sexuais entre homens. A publicação transicionou do shōnen-ai (focado em romances suaves e platônicos) para o yaoi (com teor abertamente erótico) e, antes da popularização deste segundo termo, o gênero chegou a ser denominado june por conta da revista.
Yonamine também explicou que a palavra yaoi foi formada pela junção das sílabas iniciais de três expressões: Yamanashi (Sem montanhas, sem clímax), Ochinashi (Sem desfecho) e Iminashi (Sem sentido). Isto porque, originalmente, o foco das autoras não era construir enredos complexos, mas sim inserir personagens masculinos em situações de forte tensão sexual e que suas obras originais não permitiam.
Ao final dos anos 1980 e ao longo dos anos 1990, a indústria editorial percebeu o potencial comercial dessas narrativas e passou a incentivar a criação de histórias originais, consolidando o termo comercial Boys’ Love (BL).
Coreia do Sul: Circulação informal e marginalização
A entrada do BL na Coreia do Sul ocorreu em um cenário político e regulatório adverso. Devido às restrições históricas e leis de censura impostas à cultura popular japonesa após o período de Ocupação (1910-1945), obras literárias e quadrinhos do Japão circulavam prioritariamente de forma pirata e informal. Apenas em 1998 se iniciou uma abertura gradual aos conteúdos japoneses.
Dentro desse contexto, contou Yonamine, as autoras sul-coreanas não apenas copiaram a fórmula japonesa, mas a adaptaram aos códigos culturais locais. O BL sul-coreano fundiu as convenções do yaoi com a tradição do Sunjeong Manhwa, que também são quadrinhos voltados ao público feminino, focados em intensa interioridade emocional e conflitos dramáticos.
Durante décadas, o BL permaneceu como uma subcultura institucionalmente marginalizada, que decorria de quatro fatores centrais. O primeiro é o foco na sexualidade feminina a partir da exploração do desejo das autoras e leitoras. Soma-se a isto a presença de conteúdo adulto e homossexualidade, além de uma forte associação com a cultura de fãs (fandoms). E para piorar: o elemento central, a homossexualidade, marginalizada por si só, acabou aparecendo entre os critérios nocivos da Lei de Proteção Juvenil criada em 1997.
O termo “homossexualidade” era equiparado a temas como incesto e zoofilia perante à lei, sendo retirado do texto apenas em 2004 e prejudicando a aceitação de obras que retratavam casais gays.
A cultura de fãs e o surgimento dos webtoons
“Antes do BL, vieram as leitoras. Depois, é importante entender que a história do BL coreano é também a história do conceito de fandom na Coreia do Sul”, afirmou Yonamine. Segundo a pesquisadora, “antes de ser mercado, o BL foi uma prática de ‘produzir, ler e compartilhar’.”
Nos anos 2000, a cultura das fanfics cresceu vertiginosamente dentro dos fandoms de K-Pop, onde fãs imaginavam e escreviam relacionamentos românticos entre os integrantes masculinos dos grupos. Como explicou Yonamine, a opção de autoras mulheres por escrever romances entre homens traz uma função narrativa e psíquica clara: ao afastar a protagonista feminina, eliminam-se as cobranças e julgamentos sociais impostos às mulheres no cotidiano, permitindo a exploração livre da sexualidade, do desejo e do afeto.
Paralelamente, a Coreia manteve viva a cultura das lan-houses e dos PC cafés, onde consumidoras de fanfics e BLs formaram comunidades fechadas, onde a circulação textual era alimentada via comentários, recomendações e compartilhamento — um prenúncio das plataformas de webtoons que começaram a surgir pouco depois. O surgimento das plataformas Lezhin Comics (2013) e BOMTOON (2015) redefiniram o gênero, organizando o mercado na Coreia do Sul.
Os três componentes centrais do BL Webtoon
Chegando ao BL contemporâneo, Yonamine explicou que ele se estrutura em três pilares: erotismo, amor devoto e estética. Segundo ela, cada obra pode ter um elemento dominante, mas o gênero permanece reconhecível mesmo quando a intensidade de cada um é alterada. “Esses elementos existem juntos e se intensificam mutuamente”, afirmou.
A origem calcada em fanfics do estilo slow burn também influenciou a estrutura do BL coreano, tornando suas histórias mais longas e narrativamente complexas do que as japonesas. Além disso, as plataformas perceberam novas formas de monetização. Nesse cenário, o conteúdo +19 (adulto) consolidou-se como a principal estratégia de rentabilidade e diferenciação comercial.
Ao fim do painel, Yonamine indicou três obras: Painter of the Night, de Byeonduck (leia aqui (+18), em inglês); Paljae, Child of Winter, de Gabaemari (leia aqui); e Semantic Error, de (leia +15 e +19), este último como o maior exemplo de sucesso em todos os seus formatos (webnovel, webtoon, k-drama, filme, animação). Também foi apontado rapidamente o conceito de omegaverse1 como um subgênero importante no mundo das histórias boys’ love.
A palestra encerrou-se apontando a evolução da abordagem acadêmica sobre o tema. Como demonstrado, a ascensão do BL ao mainstream global não ocorreu por uma ruptura repentina, mas por uma sequência contínua de transformações impulsionadas, sobretudo, pela força de quem o produz e lê.
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Glossário:
- Omegaverse: Subgênero que se passa em um universo onde existem dinâmicas baseadas no conceito de Alfas, Betas e Ômegas. ↩︎