Neste último final de semana, aconteceu mais uma edição da Blymecon, evento virtual brasileiro dedicado exclusivamente a BL (boys’ love). No domingo (23), o evento trouxe em sua programação o painel “A mesa dos artistas: a venda de mercadorias de ships e os eventos”.
O debate reuniu as ilustradoras Gemini (@gem.i.ni), Kunogi (@_kunogi) e Natália Prata (@nyatche) para discutir como a paixão por casais e dinâmicas de personagens (ships) impulsiona o mercado independente de produtos em convenções pelo país. A conversa teve mediação de Keiko Maxwell e Debbie Garcia.
Dos fandoms para as mesas de convenções
A transição de fãs para produtoras de mercadorias ocorreu de forma orgânica para o trio, impulsionada pelo incentivo de amigos e pela vivência prévia no universo de fandoms.
Gemini, ilustradora, ingressou na venda física após dividir uma mesa no Anime Friends. A troca direta com o público nos eventos serviu como termômetro para moldar suas ilustrações focadas no produto final.
Já Kunogi, atuante no circuito de eventos desde 2019, teve seu ponto de virada ao consumir a obra Mo Dao Zu Shi (publicado no Brasil pela NewPOP), transformando sua obsessão pelo universo em catálogo comercial.
Por sua vez, Natália Prata iniciou seu contato com a venda de produtos ainda como integrante de fandoms de k-pop e fanarts. Atualmente, combina seu clube de assinatura com a venda independente voltada aos seus gostos pessoais.
As artistas destacaram que, ao contrário do receio inicial de sofrerem resistências ao exporem conteúdo focado em BL, a recepção do público sempre se provou acolhedora e segura.
Quais produtos vendem mais?
A escolha dos itens levados às feiras reflete tanto o hábito de consumo dos visitantes quanto o estilo de trabalho de cada criadora. “Adesivo sai bastante para quem é mais de journaling, mas button e chaveiro saem para quem é mais de ita bag. Então gosto de fazer arte para contemplar esses dois públicos”, afirmou Gemini.
Kunogi relembrou os photocards e holders, que estão em alta nos eventos. “Card holder também é algo que gosto muito de fazer, faço muitas artes, é uma coisa que sai naturalmente. A galera também gosta de comprar photocard, principalmente depois que comecei a fazer de casal”, explicou.
“No meu caso, faço muito adesivo”, afirmou Natália, que diz ter uma preferência pessoal por esse produto. “É uma coisa que gosto de usar, é mais barato e fácil de fazer; é mais fácil de vender também”, disse a artista.
Eventos: receptividade, custos e outras questões
Questionadas sobre o espaço reservado para artes de fãs em convenções de grande porte (SANA, Anime Friends, CCXP e Poc Con), as palestrantes concordaram que as organizações mostram abertura comercial para o gênero BL, movidas pela alta demanda e atratividade de público. Eventuais preconceitos, quando ocorrem, tendem a partir de outros expositores ou visitantes em relação ao conceito de fanart, e não das diretrizes dos eventos.
Por outro lado, segundo elas, a viabilidade de eventos voltados exclusivamente para a publicação independente de quadrinhos autorais ou derivados (dōjinshi), no formato da lendária Comiket1 japonesa, esbarra em barreiras econômicas estruturais.
Primeiro, são os custos de produção e logística. As artistas lembraram os altos preços de aluguel de espaços, impressões e taxas que dificultam a realização de feiras focadas apenas em criadores amadores. Além disso, elas dizem existir uma pressão para que o artista iniciante obtenha lucro imediato, o que contrasta com a cultura de produção por hobby.
As artistas ainda falaram do perfil consumidor brasileiro. O público brasileiro prefere alocar seu orçamento em múltiplos itens acessíveis (como adesivos e chaveiros) a investir valores mais altos em publicações impressas de autores desconhecidos. “Tem uma pessoa que comentou aqui [no chat] que gastaria 15 reais numa zine, mas não 50. E é uma questão, porque o artista tem que cobrar 50, mas o público não necessariamente gasta isso pra conhecer algo novo”, afirmou Kunogi.
Na etapa final do encontro, as convidadas compartilharam orientações práticas para lidar com fornecedores. Natália Prata enfatizou a necessidade de o desenhista dominar os processos gráficos (como conversão de cores para impressão) e embutir margens para perdas no preço final por conta de erros em produtos.
Kunogi ressaltou a importância da clareza e paciência na comunicação com os fabricantes, além de buscar recomendações confiáveis entre outros artistas. Por fim, Gemini aconselhou quem está começando a se auto avaliar durante a confecção dos produtos. “Às vezes, você é um bom desenhista, mas não sabe lidar muito bem com maquinário. Você tem que se reconhecer nesses aspectos. Se você gosta de fazer [os produtos] em casa, tudo bem. Você já tem ciência que não vai usar esse tempo para outras coisas. Se você tem algum fornecedor de confiança, tá tudo certo também”, afirmou a artista. “O importante é você se reconhecer para não se frustrar”, finalizou.
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Observações:
- O Comiket é a maior feira de mangás e dōjinshi do mundo. O evento ocorre duas vezes por ano no Japão. ↩︎