A filmografia recente do cinema sul-coreano consagrou produções intensas da temática zumbi. Invasão Zumbi (2016), Kingdom (2019) e o vindouro Zona Zero (2026) são só alguns exemplos e estes ainda se conversam também através do apelo ao terror, à ação e aos zumbis que se contorcem e correm descontroladamente. Minha Filha é um Zumbi (My Daughter is a Zombie), adaptação do webtoon criado por Lee Yun-chang, também tem este tipo de morto-vivo. Mas, assim como Michael Jackson fez em “Thriller”, o filme prefere chamá-los para dançar.
Logo nos primeiros minutos, o longa-metragem também convida o espectador a abraçar um tom de comédia intencionalmente brega. Cercados por uma horda de zumbis, Jeonghwan (Jo Jung-suk) e a filha Soo-ah (Choi Yu-ri) imitam os gritos e movimentos dos mortos-vivos para escaparem da epidemia viral que atinge Seul de maneira repentina. A cena, filmada em paralelo ao ensaio de dança entre os dois personagens momentos antes, comunica o tom divertido e bobalhão da produção. E, se o espectador aceitar o convite dos protagonistas, pode se surpreender com o quanto ela também é acolhedora.
A escolha do diretor Pil Gam-seong e da roteirista estreante Kim Hyun foi por manter a essência do material original. A premissa é simples: um ano após o surto do vírus zumbi, Jeonghwan esconde o fato de que Soo-ah é literalmente o último zumbi restante no planeta. Em vez de focar nas causas da epidemia ou em grandes sequências de ação, a narrativa se concentra na relação familiar, que inclui também a avó Kim Bam-soon (Lee Jung-eun) e o amigo Cho Dong-bae (Yoon Kyung-ho). Juntos, eles e Jeonghwan enfrentam situações absurdas para esconder a garota do governo, que busca eliminar todo e qualquer zumbi.
Esta pequena reviravolta na lógica convencional do gênero — uma família que protege a criança depois que ela se transforma em um zumbi, não antes — permite que Pil Gam-seong se aproxime de outras produções conhecidas do gênero que fogem do terror convencional, como Meu Namorado é um Zumbi (2013), Todo Mundo Quase Morto (2004) e Zumbilândia (2009).
O diretor explora principalmente a utilização da figura meio zumbi/meio-humana Soo-ah para trabalhar as relações de outros personagens com a garota. Os percalços enfrentados são postos a fim de revelar camadas disso: o treinamento com o pai, o medo de tomar bronca da avó, os amigos de escola. Ou seja, o humor é utilizado para potencializar as soluções melodramáticas que o filme apresenta posteriormente. A obra assume sem medo o seu lado ridículo para, depois, revelar um detalhe tocante sobre os personagens.
É por isso que, ainda que sejam caricatos como no material original, Jeonghwan e sua família são figuras muito humanas e fáceis de criar empatia. O elenco é habilidoso para abordá-los de forma que sejam reconhecíveis para qualquer público. Jo Jung-suk transita com facilidade entre o alívio cômico e a figura de um pai afetuoso, enquanto Lee Jung-eun entrega uma avó que oscila habilmente entre a rigidez, o drama exagerado e momentos incríveis de comédia. Choi Yu-ri é divertida tanto como humana quanto como zumbi e Yoon Kyung-ho utiliza do seu carisma característico dos k-dramas em que trabalhou. Apenas Cho Yeo-jeong (como a professora Shin Yeon-hwa, inimiga dos zumbis) fica em segundo plano, prejudicada talvez por ser introduzida mais tarde na trama.
O filme também possui uma veia pop (acompanhada obviamente do sufixo “K”) com uma trilha sonora nostálgica para os k-popeiros mais antigos — o filme é basicamente uma ode à “No. 1”, da BoA, e ainda toca o hino “I Am the Best”, do 2NE1. Os leitores do quadrinho digital também são presenteados com fan services precisos em cada aparição do gato Miaumiau.
Sem reinventar a roda ou entregar grandes efeitos visuais, Minha Filha é um Zumbi acerta ao abraçar a comédia como ponte para o afeto familiar. É uma das produções cinematográficas mais leves, divertidas e surpreendentemente emotivas que chegam ao circuito brasileiro em 2026. Mais uma prova de que o audiovisual sul-coreano encontrou no universo dos webtoons uma fonte rica em criatividade, capaz de transformar premissas curiosas em uma experiência calorosa.
Nota: ★★★★✰ (4 de 5 estrelas)