A Poc Con 26 promoveu o painel Pesquisadores Acadêmicos no último sábado (06). Em um bate-papo moderado por Leonardo Rodrigues (aka Leody Gaga, do Afronerd), o painel reuniu importantes nomes para debater os desafios, as vivências e a urgência de estudar os quadrinhos e a cultura pop a partir de uma ótica científica.
Os participantes foram Chris Gonzatti (Diversidade Nerd), Dani Marino (Mina de HQ), Flávia Gasi e Guilherme Smee. A entrada no universo da pesquisa científica voltada para a cultura pop deu-se de formas distintas para cada um deles. “Foi uma mistura de curiosidade com o fato de não encontrar as coisas que eu gostaria de ler”, lembrou Flávia, cuja linha de pesquisa foca no universo dos games, das narrativas e da radicalização da extrema-direita.
Guilherme Smee percorreu caminhos profissionais diverso até retornar ao mundo acadêmico e ingressar no mestrado, onde se especializou em autobiografias queer, memes e super-heróis usados pela extrema direita e a relação entre o universo dos cosplayers e masculinidades. Por outro lado, Chris Gonzatti recordou com bom humor o incentivo materno precoce: “Minha carreira acadêmica começou na sexta série, fazendo um trabalho sobre a adaptação cinematográfica de Harry Potter”. Anos depois, ao ler Cultura da Convergência, de Henry Jenkins, teve o estalo necessário de que a cultura pop poderia, sim, ser objeto de estudo sério.
A transição de áreas também marcou a vida de Dani Marino. Durante a graduação em Letras, ela se deparou com a disciplina de literatura transmídia e decidiu pesquisar a série Sandman, de Neil Gaiman. Ao defender o trabalho em um congresso de iniciação científica, um acadêmico demonstrou forte descontentamento com o tema. Longe de desistir, ela encarou como um combustível: “Gostei do desafio de provar minhas teses para os outros”, pontuou a pesquisadora, que posteriormente direcionou sua carreira acadêmica para estudos sobre gibitecas, questões de gênero e análises de histórias em quadrinhos a partir de uma ótica mais inclusiva.
Preconceito e Ódio nas Redes
Durante a conversa, os participantes concordaram que ainda há um pouco de preconceito contra estudos acadêmicos sobre a cultura pop, ainda que em menor escala. Flávia Gasi comentou que chegou a encontrar uma professora totalmente contrária ao estudo dos jogos eletrônicos. “Hoje a barreira é menor. Na época em que comecei, decidi quebrá-la. Isso me abriu o mundo da tradução da pesquisa para o âmbito popular”, refletiu. Ela enfatizou o papel decisivo dos mentores: “Eu só fiquei na academia por conta da minha orientadora. O orientador muda tudo. Ela me permitiu ter um pensamento dialético e pensar a pesquisa para além da tese. Hoje tenho minhas próprias mentorias e métodos que criei”, afirmou. Dani Marino complementou: “Não faz sentido algum pesquisar cultura pop e deixar o trabalho trancado apenas em uma estante [dentro do ambiente acadêmico]. O tema já nasceu para ser acessível.”
A transposição do conhecimento científico para as redes sociais foi apontada como um dos caminhos para a tradução das pesquisas acadêmicas para um público mais geral. Neste ponto, Chris Gonzatti, que produz ativamente conteúdo na internet sobre a relação da cultura pop com o público LGBTQIAP+, abordou os ataques de ódio que já sofreu devido aos recortes de diversidade que faz em seus trabalhos. Flávia ilustrou o absurdo desse cenário com uma história irônica: “Uma vez recebi hate de um homem na internet dizendo que eu não sabia nada sobre quadrinhos. Para provar o ponto dele, ele me enviou o link de uma pesquisa acadêmica… que era minha”.
Para o mediador Leonardo Rodrigues, as dificuldades ganham camadas ainda mais profundas quando cruzadas com marcadores sociais. Ele destacou as severas complexidades enfrentadas para conseguir validar estudos sobre quadrinhos e arte em geral sob a ótica da identidade negra. “Sofri muito mais pela questão racial dentro das instituições do que pelo tema da cultura pop em si”, desabafou o mediador.
Por outro lado, apontou Guilherme Smee, não existem apenas os haters, mas também os lovers: “Uma vez, eu tinha um blog e algumas pessoas já elogiaram o conteúdo dizendo ‘Eu nunca tinha encontrado coisas sobre homossexualidade e transexualidade nos quadrinhos.’”
Dicas para Novos Pesquisadores
Antes de encerrar o painel, os participantes deixaram alguns conselhos práticos para quem deseja ingressar no mundo da pesquisa acadêmica. Veja alguns deles abaixo:
• Encontre as pessoas certas: Uma unanimidade entre todos é que, se você quer falar sobre cultura pop, o primeiro passo é procurar programas e orientadores que falem a sua língua. Além disso, busque frequentar disciplinas como aluno ouvinte, pesquisar artigos científicos na internet e ver as referências bibliográficas (e ir atrás de quem escreveu as referências!).
• “Cole em amigos acadêmicos”, orientou Smee. Ter pessoas de confiança para ler seus projetos e ajudar na estruturação textual é essencial para as suas pesquisas. “A gente constrói uma relação de família com nossos colegas e orientador; todo mundo se ajuda”, explicou Flávia.
• Construa repertório: Chris Gonzatti criticou o consumo superficial de conteúdo das novas gerações, pautadas no algoritmo. Segundo ele, deve-se incentivar a importância de consumir conteúdos diversos para que se tenha cada vez mais referências.
Para saber mais sobre os trabalhos de cada participante, acompanhe suas redes sociais:
@leodygaga
@chrisgonzatti
@guilhermesmee
@marino.dani
@flaviagasi
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