Nos últimos anos, um subgênero que se popularizou entre os webtoons é o de ação escolar. Geralmente, são histórias de vítimas de bullying que ascendem na hierarquia do colégio ao derrotar alunos mais fortes em combates estilosos. Os k-dramas logo abraçaram essa fórmula e títulos como Grupo de Estudos (2025) se tornaram sucessos recentes do gênero. Aprendendo a Lição (Teach You a Lesson), nova produção da Netflix, é uma variante dessa tendência, pois ela não se movimenta a partir de lutas entre adolescentes — e isso muda drasticamente como nos relacionamos com a história e seus personagens.
Adaptando o controverso manhwa Get Schooled, a trama acompanha membros de uma instituição governamental — o DSE (Departamento de Segurança Educacional) — que opera acima da lei para restaurar a ordem dentro das escolas. Com apoio do Ministro da Educação Choi Gang-seok (Lee Sung-min), o ex-militar Na Hwa-jin (Kim Moo-yul) tem passe livre para “dar uma lição” a alunos, professores e pais que ultrapassam os limites e atrapalham o bem-estar escolar.
A dinâmica de poderes aqui é completamente diferente para o gênero. Não temos apenas adolescentes se agredindo para ver quem é o mais forte, mas um adulto que utiliza da mesma violência para “resolver” o problema. Quem acompanha o Falar de Webtoon já sabe que agressões contra estudantes menores de idade é a menor controvérsia de Get Schooled. Os problemas do webtoon criado por CHAE Yong Taek e HAN Ga Ram envolvem também o uso de termos racistas contra pessoas negras e retratos problemáticos de personagens feministas. Deixada de lado a escolha de se adaptar uma obra tão polêmica, o drama não foge do principal problema do material original: a preferência pela espetacularização das punições violentas em vez da reflexão sobre os temas apresentados.
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Antes de tudo, preciso fazer um pouco de justiça (não violenta rs). A série tem seus momentos de brilho ao focar em algumas dores reais do sistema educacional sul-coreano que não são discutidas de forma direta. O episódio 5, que retrata uma professora do ensino primário sendo assediada por uma mãe ecoa tragédias reais da Coreia do Sul, onde profissionais chegaram ao suicídio devido ao abuso de pais de alunos e à inação do governo. A série aborda ainda temas como a dependência de remédios, burnout e o crescimento do vício em apostas online (tigrinho!) entre adolescentes. Além disso, a direção de Hong Jong Chan, que já lidou com menores infratores em Juvenile Justice (2022), transita entre o drama, a ação e a comédia com a consciência do que cada momento da série precisa.
É um k-drama de fato bem produzido, que consegue engajar o espectador através da ação e do mistério em torno das intenções do vilão adolescente Cho Gyu-cheol (Lee Bong-joon). A dinâmica entre a inspetora Han-rim (Jin Ki-joo) e o simpático Bong Geun-dae (Pyo Ji-hoon) também cumpre um papel nesse sentido, com o humor e o romance sendo pilares na minimização do tom violento do webtoon. O grande problema surge na condução dos dilemas escolares, que expõe repetições de fórmulas, contradições e um descuido com as temáticas.
A escolha do roteiro de Kim Da-hee, Lee Nam-kyu e Moon Jong-ho por uma estrutura procedural de episódios permite tratar sobre diversos assuntos, mas não se aprofunda na maioria deles. A série prefere focar em soluções radicais que satisfazem o público de imediato, mas e depois? “Não criamos um sistema após um incidente. Criamos para prevenir o incidente”, afirma o Ministro Choi Gang-seok no quinto episódio, mas durante a série não há tempo para questionamentos sobre a necessidade de novas legislações e nenhuma mensagem sobre o acesso a tratamentos psicológicos, por exemplo. Há, na verdade, uma divisão maniqueísta entre os personagens: eles são heróis incorruptíveis (ou vítimas completamente fragilizadas) contra os criminosos irrecuperáveis.

O roteiro também não consegue desviar de uma única fórmula: o problema aparece, o DSE intervém e vemos um flashback de como a vítima entrou naquela situação. Depois, os culpados são desmascarados e punidos, e a história segue para o próximo episódio/caso. É uma repetição onde o cansaço é amplificado pela ausência de tensão, visto que as decisões e métodos do DSE não são confrontados (exceto por vilões incorrigíveis) e seus agentes vencem dezenas de adversários de uma vez só em uma luta.
O k-drama ainda perde oportunidades de autorreflexão, que dariam mais nuances e complexidade para os personagens. O DSE é criado a partir da morte de uma professora, a Srta. Choi Ga-yun (Ahn Ha-young), esposa de Na Hwa-jin e filha do ministro Choi Gang-seok. Em certo episódio, o político diz: “Se uma ação vem carregada de emoção, vira violência”. É quase como um alerta de que a criação do Departamento de Segurança Educacional pode ser prejudicial a longo prazo justamente por ter surgido de sentimentos que se confundem com vingança e luto. Mas essa ideia fica apenas nessa frase meio solta e é deixada de lado rapidamente.
Nessa falta de contraponto, inclusive, fica a sensação de que a série realmente acredita nos discursos que apresenta. Qualquer tipo de vício é tratado como crime e a prisão como única forma de reabilitação. Práticas militares são tratadas como a solução ideal para adolescentes delinquentes. No terceiro episódio, a série escolhe um tema sensível e complexo como assédio sexual para defender o castigo corporal pelos professores contra os alunos, prática que foi proibida no país apenas em 2010.
Em um lugar onde a violência física era aceita como solução para o mau-comportamento até pouquíssimo tempo atrás, é compreensível que um dos maiores representantes do gênero de ação escolar, Classe dos Heróis Fracos (2022), se apresente como uma tragédia sobre a violência como único caminho para a masculinidade. Tentando acompanhar seu par de gênero, Aprendendo a Lição também quer muito entregar uma mensagem sobre o sistema educacional sul-coreano, mas acaba flertando com um espetáculo de violência de Estado camuflada de justiça. Poucas lições são realmente ensinadas aqui.
Nota: ★★✰✰✰ (2 de 5 estrelas)